Imago Urbis · Cidade e território
Salvador: a geografia da criminalidade
Furtos, roubos e homicídios apresentam distribuições diferentes pela cidade. O mapa dessas ocorrências ajuda a compreender onde as modalidades se encontram e onde seus padrões se afastam.
A insegurança em Salvador tem diferentes geografias. A preocupação com o celular numa caminhada, o medo de um assalto no percurso de volta para casa e a exposição à violência armada não correspondem necessariamente aos mesmos lugares ou às mesmas circunstâncias.
Em novembro de 2025, publiquei no Imago Urbis um artigo que perguntava se furtos e roubos se concentravam nos pontos turísticos. O aprofundamento do levantamento amplia aquela interpretação. A orla e os bairros de lazer continuam importantes, mas dividem espaço com centralidades comerciais, bairros populares e áreas de intensa circulação cotidiana. Quando incorporamos os homicídios, outros territórios ganham destaque.
O mapa que acompanha este artigo apresenta essa diversidade, reunindo uma seleção dos bairros destacados em cada modalidade. Os círculos indicam quantidades agregadas por bairro, e não endereços de ocorrências. Sua sobreposição permite visualizar presenças simultâneas, mas não demonstra, por si, uma relação causal entre os crimes.
Existe também uma diferença temporal indispensável à leitura: os registros de furtos e roubos por bairro referem-se a 2024; os de homicídio doloso, a janeiro–setembro de 2026. O mapa reúne os recortes utilizados no levantamento, sem apresentar essa combinação como um retrato integral de um único ano.
Nos furtos, a distribuição combina a fachada atlântica com as centralidades comerciais. Itapuã, Rio Vermelho, Caminho das Árvores, Barra e Pituba ocupam as primeiras posições do levantamento de 2024. Centro, Nazaré, Brotas, Pernambués e São Cristóvão completam o grupo de dez bairros representados. [1]
A presença de Barra, Rio Vermelho e Itapuã mantém a relação com espaços de lazer e visitação. Mas Caminho das Árvores exige incorporar outra dimensão: a concentração de compras, trabalho e serviços. Centro e Nazaré acrescentam a centralidade tradicional, enquanto Brotas, Pernambués e São Cristóvão mostram que essa geografia ultrapassa amplamente os cartões-postais.
Mesmo os bairros associados ao turismo têm funções diversas. Itapuã reúne moradia, comércio, transporte e lazer. O Rio Vermelho combina vida residencial, serviços e atividades noturnas. A quantidade de registros nesses territórios não permite atribuir os crimes exclusivamente à presença de visitantes.
A hipótese urbana mais abrangente é a relação com a circulação de pessoas e a concentração de oportunidades de subtração de bens. Isso não significa que espaços movimentados sejam necessariamente mais perigosos: muitos registros podem refletir um grande número de pessoas expostas. Para avaliar risco, seria necessário considerar também os fluxos, os horários e a frequência de utilização dos lugares.
Nos roubos, que envolvem violência ou grave ameaça, o desenho muda. Itapuã, São Caetano, Rio Vermelho, Caminho das Árvores e Brotas formam o grupo de cinco bairros destacado no mapa. A posição de São Caetano desloca o olhar para as centralidades populares do interior da cidade. Brotas também ganha expressão, enquanto Itapuã, Rio Vermelho e Caminho das Árvores aparecem nas duas modalidades patrimoniais. [1]
Os círculos sobrepostos nesses lugares traduzem uma questão relevante: furtos e roubos podem compartilhar territórios sem obedecer exatamente às mesmas circunstâncias. A investigação precisa avançar para a escala das ruas, dos percursos e dos horários.
Nos homicídios dolosos, o mapa se desloca para o Subúrbio e para áreas interiores e da expansão norte. Nos microdados da SSP, São Cristóvão apresenta o maior total do recorte de janeiro a setembro de 2026, seguido por Periperi, Beiru/Tancredo Neves, Castelo Branco, Lobato, Paripe, Pirajá e Narandiba. [2]
Periperi, Paripe e Lobato evidenciam o eixo suburbano. Beiru/Tancredo Neves e Narandiba destacam o miolo urbano. Castelo Branco, Pirajá e São Cristóvão ampliam essa distribuição para outros setores interiores e do norte da cidade. São referências de localização, não territórios homogêneos: a distribuição das ocorrências pode variar muito dentro de cada bairro.
Os quantitativos representados no mapa
| Bairro | Furtos 2024 |
Roubos 2024 |
Homicídios dolosos jan.–set. 2026 |
|---|---|---|---|
| Itapuã | 1.519 | 1.062 | — |
| Rio Vermelho | 1.310 | 882 | — |
| Caminho das Árvores | 1.299 | 833 | — |
| Barra | 1.296 | — | — |
| Pituba | 1.256 | — | — |
| Centro | 1.123 | — | — |
| Nazaré | 1.096 | — | — |
| Brotas | 1.058 | 832 | — |
| Pernambués | 936 | — | — |
| São Cristóvão | 801 | — | 16 |
| São Caetano | — | 917 | — |
| Periperi | — | — | 13 |
| Beiru/Tancredo Neves | — | — | 12 |
| Castelo Branco | — | — | 12 |
| Lobato | — | — | 11 |
| Paripe | — | — | 10 |
| Pirajá | — | — | 10 |
| Narandiba | — | — | 10 |
O traço significa que o bairro não integra a seleção representada naquela modalidade; não significa ausência de ocorrências. Furtos e roubos: levantamento do Anuário da Polícia Civil reproduzido pelo Bahia Notícias. Homicídios: tabulação dos microdados da SSP-BA, somando vítimas por bairro do fato. [1] [2]
São Cristóvão chama atenção por aparecer entre os bairros destacados nos furtos e liderar o recorte de homicídios dolosos. Essa presença em duas camadas constitui uma prioridade de investigação, sem permitir concluir que os fenômenos estejam diretamente relacionados — sobretudo porque os períodos são diferentes.
As disputas pelo controle territorial do tráfico integram a análise dos crimes contra a vida. Em junho de 2026, a Polícia Civil informou investigar uma organização relacionada a pelo menos 15 homicídios entre 2025 e 2026, com atuação predominante em Águas Claras e Cajazeiras V, vinculada a disputas territoriais e ao tráfico de drogas. Esses bairros constituem um exemplo documentado dessa dinâmica, embora não integrem o grupo de maiores totais de homicídio doloso representado no mapa. [3]
O tráfico, entretanto, não pode funcionar como explicação automática para qualquer homicídio. A localização de uma morte num território sob influência criminosa tampouco permite presumir envolvimento da vítima com o crime. As circunstâncias dependem de investigação.
As mortes decorrentes de intervenção policial não estão incluídas na camada de homicídios deste mapa. Constituem categoria própria, que deve permanecer identificada separadamente. A classificação como intervenção policial não equivale automaticamente a assassinato; a avaliação da legalidade e das circunstâncias de cada episódio exige apuração.
Na comparação nacional, Salvador permanece em posição preocupante. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, com dados de 2025, coloca a cidade na quarta posição em taxa de celulares roubados e furtados, com 1.195 aparelhos por 100 mil habitantes, atrás de São Luís, Belém e São Paulo. [4] No indicador de violência letal do Anuário Cidades Mais Seguras 2026, da MySide, Salvador apresenta 48,4 mortes por 100 mil habitantes, a quarta maior taxa entre as capitais, depois de Maceió, Recife e Fortaleza. Esse levantamento utiliza registros de mortalidade de 2025 e metodologia própria, diferente da categoria policial de homicídio doloso representada no mapa. Nenhuma dessas posições constitui um ranking geral de todas as modalidades criminais. [5]
Essas posições coexistem com uma melhora em determinados indicadores. Segundo o balanço da SSP, Salvador encerrou 2025 com redução de 22,9% nos crimes violentos letais intencionais em relação a 2024. A queda merece reconhecimento, mas não significa que todos os bairros ou todas as modalidades tenham apresentado o mesmo comportamento. [6]
A leitura urbana do mapa exige respostas específicas. Nas centralidades comerciais e de lazer, interessa compreender os trajetos, os horários, a presença institucional e as condições de proteção de quem circula. Nos territórios com maior registro de homicídios, a análise precisa alcançar as circunstâncias dos fatos, a proteção dos moradores e a continuidade dos serviços públicos.
Iluminação, manutenção, transporte e atividades ao longo do dia podem integrar a prevenção, mas não substituem investigação criminal e segurança pública. Tampouco seria adequado responder à criminalidade esvaziando os espaços de convivência. Proteger a vida urbana significa permitir que as pessoas continuem utilizando a cidade.
O mapa evidencia diferenças territoriais e alguns encontros entre modalidades. Seus vazios não são certificados de segurança, e seus círculos não classificam bairros inteiros como perigosos. A principal contribuição está em substituir a ideia de uma insegurança uniforme por perguntas localizadas: que crime, em que lugar, em quais circunstâncias e com quais consequências para quem vive ali?
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