Marcos Rodrigues
O silêncio da madrugada na Gamboa de Baixo foi varrido por trocas de tiros. Rajadas de metralhadora e estampidos de calibres diversos violaram o começo do dia por cerca de dez minutos. Alguns gritos e depois apenas o vácuo.
Uma olhada na tela azulada do celular mostrava 3:16. Nenhuma coragem pra levantar da cama. Não por medo; mas pelo sono que não entra em negociação. Nem com a apatia pelo cotidiano violento de Salvador, nem com a consciência indignada e nem mesmo com a compaixão cristã.
O sol nasce, a semana começa e Carlos, um encanador de seus 60 anos, bate à porta. Em pouco tempo, um joelho hidráulico trocado e uma prosa que lamenta não ter visto Messi voltar pra casa sem a quarta taça: trabalhou durante todo o domingo.
“Nunca teve um ajudante Seu Carlos?” Pergunto, enquanto ele termina o serviço.
“Ninguém mais quer trabalhar. Tive um jovem aprendiz”; diz ele com a voz pausada e tranquila, daquelas que se percebe uma maturidade de dar inveja. E prossegue: “mas resolveu debandar para o tráfico. Me disse que tira lá, em uma semana, duas vezes o que pago num mês”.
Uma pausa mais longa, enquanto abre o registro e mostra o resultado do seu serviço. E complementa: “não sei se ainda está vivo”.

Comentários