Grandes terrenos, pequenas ideias

Grandes terrenos, pequenas ideias


Marcos Rodrigues

Quando uma grande área urbana muda de mãos, não está em jogo apenas um novo empreendimento. Está em jogo o pedaço de cidade que poderá surgir naquele lugar.


CvIQVfe.png

Há notícias que parecem dizer respeito apenas ao mercado imobiliário. Na verdade, dizem respeito à cidade.

Recentemente, duas grandes áreas urbanas de Salvador mudaram de mãos: a antiga sede dos Correios, na Pituba, e o terreno do antigo Centro de Convenções, na Boca do Rio. Durante anos, ambas permaneceram subutilizadas, deterioradas e transformadas em focos de insegurança. Sua reocupação é, sem dúvida, uma boa notícia.

Mas a pergunta realmente importante talvez seja outra: o que faremos com essas áreas?

A resposta parece óbvia, mas não é.

Sempre que um grande terreno é colocado no mercado, a discussão costuma girar em torno da mesma questão: quantas torres cabem ali? É uma pergunta legítima para incorporadores, investidores e corretores. Mas é uma pergunta pequena para a cidade.

A verdadeira questão deveria ser outra: que pedaço de cidade esse terreno pode construir?

A diferença entre essas duas perguntas é enorme.

Um grande terreno não representa apenas uma oportunidade de lançar um empreendimento. Representa uma oportunidade de corrigir conexões urbanas interrompidas, criar novas ruas, ampliar a rede de espaços públicos, diversificar usos, aproximar moradia, trabalho e comércio e, sobretudo, produzir urbanidade.

Infelizmente, nossas conversas sobre desenvolvimento urbano costumam reduzir essas possibilidades ao desenho de um condomínio.

É curioso perceber que áreas capazes de dar origem a novos fragmentos de cidade frequentemente acabam imaginadas como enclaves: ruas privadas, muros altos, poucos acessos e uma relação mínima com o entorno. O resultado pode até produzir bons negócios. Mas raramente produz uma cidade melhor.

Salvador talvez esteja vivendo um momento silencioso, porém decisivo.

As grandes glebas urbanas remanescentes estão diminuindo. Depois da Pituba, da Boca do Rio, da antiga Rodoviária, do antigo Detran e de poucos outros terrenos estratégicos, haverá muito menos oportunidades de transformar a estrutura da cidade em larga escala. As decisões tomadas agora permanecerão visíveis por décadas.

É justamente por isso que essas áreas não deveriam ser discutidas apenas como ativos imobiliários.

São peças do futuro urbano de Salvador.

A cidade não precisa escolher entre desenvolvimento econômico e qualidade urbana. Ao contrário: empreendimentos mais permeáveis, conectados e integrados ao tecido urbano podem produzir, simultaneamente, valor imobiliário e qualidade de vida.

Talvez este seja o momento de ampliar a conversa.

Antes de perguntar quantas torres cabem em um terreno, talvez devêssemos perguntar que cidade queremos construir nele.

Porque grandes terrenos merecem mais do que pequenas ideias.

Imago Urbis · Salvador, Bahia

Comentários