O que sobra da cidade quando a música para?
Introdução
Nos últimos anos, Salvador tem sido apresentada como uma cidade cuja vitalidade econômica estaria profundamente atrelada ao calendário de grandes eventos: Carnaval, Réveillon, festivais, shows e celebrações de massa. Essa narrativa é tão repetida que se tornou quase um dogma.
No entanto, uma leitura atenta dos dados recentes sobre o perfil dos visitantes revela algo desconcertante: cerca de dois terços das pessoas que vêm a Salvador não vêm por lazer ou eventos. Elas vêm por razões estruturais: visitar parentes, acessar serviços de saúde, resolver demandas administrativas ou educacionais.
Essa constatação muda completamente o enquadramento do debate urbano.
O dado que desmonta a narrativa
Aproximadamente 66% das viagens para Salvador estão ligadas a visitas familiares, saúde e serviços.
O turismo de lazer responde por menos de um terço do fluxo total.
Não se trata de um detalhe estatístico. Trata-se de um dado estrutural.
Salvador não é apenas um destino: é um hub regional
Esses números revelam algo que o discurso promocional costuma ocultar: Salvador funciona, antes de tudo, como uma capital regional de serviços.
- Hospitais de alta complexidade
- Universidades
- Órgãos públicos
- Redes familiares formadas historicamente pela migração interior/capital
Esse fluxo existe independentemente de campanhas de marketing ou eventos. Ele é produzido pela posição de Salvador na rede urbana do Nordeste.
Em termos analíticos, não estamos falando de “turistas”, mas de mobilidade regional qualificada.
O papel real dos eventos
Eventos como o Carnaval cumprem um papel importante, mas frequentemente mal interpretado.
- Concentram fluxos no tempo
- Elevam o gasto médio
- Atraem visitantes externos
- Ampliam a visibilidade simbólica da cidade
Mas eles não explicam o volume anual de deslocamentos.
Mesmo sem Carnaval ou grandes festivais, Salvador continuaria recebendo a maior parte dos visitantes que hoje recebe.
O evento intensifica. Não sustenta.
O erro estratégico
O problema surge quando eventos passam a ser tratados como estratégia estrutural de desenvolvimento urbano, e não como instrumentos táticos.
- Sobrecarga pontual da infraestrutura
- Investimentos concentrados em picos
- Negligência da qualidade urbana cotidiana
- Dependência simbólica do espetáculo
Enquanto isso, o fluxo que realmente sustenta a cidade; saúde, serviços e relações familiares, permanece pouco qualificado urbanisticamente.
Salvador como cidade do ordinário
Se aceitarmos os dados, a conclusão é inevitável: Salvador não vive de eventos. Ela funciona apesar deles. E poderia funcionar muito melhor se fosse pensada para o cotidiano.
- Qualificar a experiência urbana média
- Melhorar os deslocamentos intermunicipais
- Facilitar o acesso a serviços
- Valorizar os espaços de permanência cotidiana
É aí que estão os ganhos duráveis; sociais e econômicos.
Conclusão
Salvador continuará recebendo milhões de pessoas todos os anos, com ou sem Carnaval. A questão não é se o fluxo existe, mas como a cidade escolhe lidar com ele.
Talvez esteja na hora de substituir a economia do espetáculo por uma política urbana à altura da sua centralidade real.

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