Salvador Além do Evento

O que sobra da cidade quando a música para?

Por Marcos Rodrigues

Introdução

Nos últimos anos, Salvador tem sido apresentada como uma cidade cuja vitalidade econômica estaria profundamente atrelada ao calendário de grandes eventos: Carnaval, Réveillon, festivais, shows e celebrações de massa. Essa narrativa é tão repetida que se tornou quase um dogma.

No entanto, uma leitura atenta dos dados recentes sobre o perfil dos visitantes revela algo desconcertante: cerca de dois terços das pessoas que vêm a Salvador não vêm por lazer ou eventos. Elas vêm por razões estruturais: visitar parentes, acessar serviços de saúde, resolver demandas administrativas ou educacionais.

Essa constatação muda completamente o enquadramento do debate urbano.

O dado que desmonta a narrativa

Aproximadamente 66% das viagens para Salvador estão ligadas a visitas familiares, saúde e serviços.

O turismo de lazer responde por menos de um terço do fluxo total.

Não se trata de um detalhe estatístico. Trata-se de um dado estrutural.

Salvador não é apenas um destino: é um hub regional

Esses números revelam algo que o discurso promocional costuma ocultar: Salvador funciona, antes de tudo, como uma capital regional de serviços.

  • Hospitais de alta complexidade
  • Universidades
  • Órgãos públicos
  • Redes familiares formadas historicamente pela migração interior/capital

Esse fluxo existe independentemente de campanhas de marketing ou eventos. Ele é produzido pela posição de Salvador na rede urbana do Nordeste.

Em termos analíticos, não estamos falando de “turistas”, mas de mobilidade regional qualificada.

O papel real dos eventos

Eventos como o Carnaval cumprem um papel importante, mas frequentemente mal interpretado.

  • Concentram fluxos no tempo
  • Elevam o gasto médio
  • Atraem visitantes externos
  • Ampliam a visibilidade simbólica da cidade

Mas eles não explicam o volume anual de deslocamentos.

Mesmo sem Carnaval ou grandes festivais, Salvador continuaria recebendo a maior parte dos visitantes que hoje recebe.

O evento intensifica. Não sustenta.

O erro estratégico

O problema surge quando eventos passam a ser tratados como estratégia estrutural de desenvolvimento urbano, e não como instrumentos táticos.

  • Sobrecarga pontual da infraestrutura
  • Investimentos concentrados em picos
  • Negligência da qualidade urbana cotidiana
  • Dependência simbólica do espetáculo

Enquanto isso, o fluxo que realmente sustenta a cidade; saúde, serviços e relações familiares, permanece pouco qualificado urbanisticamente.

Salvador como cidade do ordinário

Se aceitarmos os dados, a conclusão é inevitável: Salvador não vive de eventos. Ela funciona apesar deles. E poderia funcionar muito melhor se fosse pensada para o cotidiano.

  • Qualificar a experiência urbana média
  • Melhorar os deslocamentos intermunicipais
  • Facilitar o acesso a serviços
  • Valorizar os espaços de permanência cotidiana

É aí que estão os ganhos duráveis; sociais e econômicos.

Conclusão

Salvador continuará recebendo milhões de pessoas todos os anos, com ou sem Carnaval. A questão não é se o fluxo existe, mas como a cidade escolhe lidar com ele.

Talvez esteja na hora de substituir a economia do espetáculo por uma política urbana à altura da sua centralidade real.

Essa tese da cidade do cotidiano está desenvolvida no meu livro “Urbanismo do Ordinário”, disponível em versão Kindle, na Amazon.

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