Como a iluminação redefine o território nas metrópoles
Marcos Rodrigues
Existe uma mudança silenciosa em curso nas cidades brasileiras. Ela não se manifesta apenas nas estatísticas criminais, nem nos discursos oficiais sobre segurança pública. Ela se revela, antes de tudo, na relação cotidiana entre o cidadão e o espaço urbano; mais especificamente, na relação entre o corpo e a luz.
Ao longo dos últimos anos, e com intensidade crescente entre 2024 e 2026, a iluminação pública deixou de ser percebida como um mero componente técnico da infraestrutura urbana para assumir um papel estrutural na organização simbólica e funcional da cidade. A luz tornou-se, simultaneamente, um instrumento de proteção, um marcador territorial e um indicador da capacidade efetiva do Estado de sustentar a ordem espacial.
Essa transformação não é apenas material. Ela é, sobretudo, perceptiva.
A geografia da visibilidade
A relação entre iluminação e segurança urbana está profundamente associada ao conceito de vigilância natural, formulado inicialmente por Jane Jacobs e posteriormente sistematizado no campo do Crime Prevention Through Environmental Design (CPTED). A premissa é simples, mas poderosa: espaços visíveis tendem a ser espaços mais seguros, não necessariamente porque o crime desaparece, mas porque seu custo operacional aumenta.
Estudos internacionais consistentes indicam que melhorias estruturais na iluminação pública podem reduzir certos tipos de crime em algo entre 15% e 30%, especialmente crimes oportunistas como furtos e roubos em espaço aberto. Mais importante ainda, produzem uma redução significativa na sensação subjetiva de insegurança.
Essa distinção é fundamental. A luz não elimina necessariamente o crime. Ela elimina o anonimato. E, ao fazê-lo, altera o equilíbrio psicológico que sustenta o ato criminoso.
O contra-ataque invisível: o furto de infraestrutura
Entretanto, à medida que a iluminação pública passou a desempenhar um papel mais estratégico na segurança urbana, ela própria tornou-se alvo.
O furto de cabos elétricos; um fenômeno historicamente associado a áreas industriais ou ferroviárias, expandiu-se rapidamente para o tecido urbano cotidiano. Esse processo não deve ser interpretado apenas como um delito isolado, mas como uma forma indireta de reorganização territorial. Ao remover a luz, remove-se a capacidade de vigilância.
Em diversas capitais brasileiras, concessionárias e empresas públicas relataram crescimento significativo nos furtos de cabos entre 2023 e 2025, com milhares de ocorrências anuais. Em São Paulo, esse fenômeno atingiu tanto áreas centrais quanto corredores periféricos. No Rio de Janeiro, afetou vias estruturais e bairros residenciais. Em Brasília, a própria característica subterrânea da rede, concebida originalmente como solução estética e funcional, revelou-se vulnerável, dificultando a inspeção e facilitando a ação criminosa.
O impacto desse processo vai muito além do custo financeiro. Ele produz, literalmente, zonas de invisibilidade. E zonas de invisibilidade produzem zonas de retração urbana.
A hidrodinâmica da criminalidade
Existe uma característica importante nesse fenômeno: ele não se distribui de forma homogênea. O crime, como um fluido, desloca-se ao longo dos gradientes de resistência. Quando uma área é iluminada, monitorada e ocupada, o crime tende a migrar. Não desaparece; desloca-se.
Esse padrão, amplamente documentado na criminologia ambiental, tornou-se visível nas metrópoles brasileiras contemporâneas. Grandes avenidas requalificadas com iluminação LED, maior altura de instalação e materiais menos vulneráveis passaram a apresentar redução significativa de furtos de infraestrutura. Contudo, áreas adjacentes como ruas secundárias, zonas de transição e tecidos urbanos fragmentados passaram a concentrar novos incidentes. Esse fenômeno é conhecido como displacement effect, o efeito de deslocamento.
Ele revela uma verdade incômoda: intervenções pontuais não são suficientes para reorganizar o território de forma estável. A segurança urbana é uma propriedade sistêmica. Não local.
Salvador: a luz e a fragmentação
Em Salvador, esse processo tornou-se particularmente visível. A cidade apresenta uma morfologia urbana caracterizada por forte fragmentação territorial, resultado de décadas de crescimento desigual e descontinuidades espaciais.
Nos últimos anos, a modernização da iluminação pública avançou de forma significativa, especialmente em eixos estruturais como a Avenida Paralela, a Orla Atlântica e grandes corredores viários. A substituição por LED, a elevação dos pontos de luz e a melhoria dos sistemas de manutenção produziram um ambiente perceptivamente mais estável.
Entretanto, a cidade continua marcada por contrastes abruptos. A poucos metros de corredores plenamente iluminados, persistem áreas com iluminação irregular, falhas frequentes ou visibilidade reduzida. Esses espaços tornam-se zonas de transição perceptiva; áreas onde o cidadão experimenta, de forma aguda, a sensação de vulnerabilidade.
O medo, nesses casos, não emerge necessariamente da presença direta do crime, mas da ausência de garantias espaciais. A escuridão torna-se um sinal. Um marcador territorial implícito.
A dimensão psicológica da infraestrutura
Esse é, talvez, o aspecto mais profundo dessa transformação. A infraestrutura urbana não organiza apenas fluxos físicos. Ela organiza estados mentais.
A iluminação pública é uma forma de linguagem silenciosa. Ela comunica presença, controle e continuidade institucional. Sua ausência comunica abandono, descontinuidade e vulnerabilidade.
Esse mecanismo é cumulativo. Quando repetido ao longo do tempo, reconfigura padrões de deslocamento, altera rotinas e redefine o mapa subjetivo da cidade. Os cidadãos passam a evitar certas ruas. Depois certos bairros. Depois certos territórios inteiros.
O resultado é uma cidade que permanece fisicamente contínua, mas perceptivamente fragmentada.
O cerco institucional e seus limites
Nos últimos anos, houve um avanço importante no reconhecimento institucional desse problema. Mudanças legislativas e operacionais buscaram aumentar as penalidades associadas ao furto de infraestrutura e melhorar a rastreabilidade de materiais metálicos. Paralelamente, concessionárias e municípios passaram a adotar novas estratégias técnicas, incluindo:
- substituição de cobre por materiais de menor valor de revenda
- concretagem de dutos
- elevação dos pontos de instalação
- monitoramento remoto
Essas medidas produziram resultados localizados positivos. Mas não eliminaram o fenômeno. Porque o problema não é apenas técnico; é territorial.
A luz como instrumento de reconquista urbana
O que emerge desse cenário é uma compreensão mais profunda da natureza da segurança urbana contemporânea. A segurança não é apenas uma função policial. É uma função espacial.
Ela depende da continuidade do tecido urbano, da previsibilidade do ambiente e da manutenção da visibilidade.
A iluminação pública, nesse contexto, torna-se um dos instrumentos mais eficientes de estabilização territorial que não atua pela força e, sim, pela presença.
Ao tornar o espaço visível, torna-o compartilhável. Ao torná-lo compartilhável, torna-o urbano.
A batalha pela noite
A disputa pela cidade contemporânea não ocorre apenas durante o dia. Ela ocorre, sobretudo, durante a noite.
Cada poste apagado representa uma retração simbólica do território público. Cada rua iluminada representa sua reafirmação.
O futuro das metrópoles brasileiras dependerá menos da expansão física e mais da estabilização perceptiva de seu território existente.
A cidade segura não é apenas aquela onde o crime é punido. É aquela onde o espaço permanece visível. Onde o cidadão não precisa imaginar o que está escondido na escuridão. Onde a luz não é apenas um recurso técnico mas uma garantia silenciosa de continuidade urbana.

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