Um Elogio ao Cotidiano Urbano



As cidades do século XXI já não fracassam por falta de projetos, planos ou investimentos. Fracassam, com frequência crescente, por erros de leitura. Ao privilegiar o excepcional, como grandes obras, eventos, marcos arquitetônicos e intervenções simbólicas, o urbanismo contemporâneo tem negligenciado aquilo que testa a cidade de forma mais rigorosa: o cotidiano.

A cidade real não é vivida no dia da inauguração, nem no momento do evento, nem na imagem promocional, Como já citei o caso de Salvador no texto “A Cidade da Quarta-Feira de Cinzas”, aqui nesse blog. A cidade é vivida na repetição de gestos simples: atravessar, esperar, sentar, retornar, permanecer. É nesse plano ordinário, pouco visível e raramente celebrado, que a qualidade urbana se confirma ou se dissolve.

O urbanismo do ordinário parte de uma premissa direta:
é no uso cotidiano que a cidade revela sua verdadeira condição.

Jane Jacobs demonstrou que a vitalidade urbana nasce da repetição diária da vida comum, da mistura de usos e da presença contínua de pessoas. William H. Whyte mostrou, com observação empírica rigorosa, que os espaços urbanos bem-sucedidos são aqueles que permitem comportamentos simples sem mediação excessiva. Jan Gehl evidenciou que a qualidade urbana se mede pela quantidade de atividades opcionais; aquelas que só ocorrem quando o espaço é confortável, legível e confiável. Kevin Lynch revelou que cidades legíveis reduzem o desgaste cognitivo e ampliam a apropriação cotidiana.

Apesar de suas diferenças, esses autores convergem em um ponto fundamental: cidades bem-sucedidas são aquelas que funcionam nos dias comuns.

O ordinário, aqui, não é sinônimo de banalidade pejorativa. Ele é o campo onde o espaço urbano é continuamente testado. Um lugar que só funciona sob condições ideais; clima favorável, evento programado, segurança reforçada, revela fragilidade estrutural. Um lugar que funciona quando nada de especial acontece demonstra robustez urbana.

É nesse ponto que o urbanismo do ordinário dialoga diretamente com a noção de antifragilidade, formulada por Nassim Nicholas Taleb. Sistemas antifrágeis não são aqueles que apenas resistem ao estresse, mas os que se beneficiam de choques, variações e usos repetidos. Eles aprendem, se ajustam e se fortalecem justamente por não dependerem de condições excepcionais.

Aplicada à cidade, essa ideia desloca profundamente o olhar. Territórios urbanos baseados em grandes âncoras, eventos ou projetos únicos tendem a concentrar risco e criar pontos únicos de falha. Quando a âncora perde força, o território entra em colapso. Já os ambientes urbanos sustentados por usos cotidianos diversos, redundâncias funcionais e apropriação espontânea distribuem o risco e absorvem melhor as mudanças.

O cotidiano urbano, com seus pequenos conflitos, ajustes informais e repetições, funciona como um estresse contínuo de baixa intensidade, capaz de revelar falhas, induzir adaptações e fortalecer o sistema. Cidades que suportam o ordinário sem se tornar hostis, excludentes ou exaustivas aproximam-se de uma condição antifrágil: não porque evitam o conflito, mas porque o incorporam no dia a dia.

O urbanismo do ordinário, portanto, não se opõe à infraestrutura, à monumentalidade ou aos grandes projetos. Ele apenas recusa a ideia de que esses elementos, isoladamente, produzam cidades capazes de durar. Infraestrutura pode gerar fluxo sem permanência. Monumentos podem produzir valor simbólico sem vida cotidiana. Eventos podem ativar espaços que permanecem vazios no dia seguinte.

A questão decisiva não é o impacto imediato, mas a capacidade de sustentação no tempo.

Em um contexto urbano marcado por rápidas transformações econômicas, sociais e tecnológicas, cidades que dependem do excepcional tornam-se vulneráveis. Cidades que funcionam no ordinário acumulam valor de forma incremental e silenciosa. Elas não precisam ser constantemente reinventadas para continuar existindo.

O urbanismo do ordinário não propõe uma estética da nostalgia nem uma idealização da rotina. Ele propõe um critério. A cidade não deve ser avaliada por seus melhores dias, mas por sua capacidade de atravessar os dias comuns sem se degradar.

Cidades frágeis precisam de eventos para existir.
Cidades capazes de suportar o cotidiano
têm condições de se tornar antifrágeis.

É no ordinário, e não no espetáculo, que se decide se uma cidade é apenas visitável ou verdadeiramente habitável.

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