Quem Tem Medo da Verticalização

Poucos temas despertam reações tão imediatas e emocionais no debate urbano brasileiro quanto a verticalização. Antes mesmo de qualquer análise técnica, edifícios mais altos costumam ser associados a especulação, desumanização e colapso urbano. Mas talvez a pergunta correta não seja se a verticalização é boa ou ruim — e sim: quem tem medo dela?

Ao longo das últimas décadas, a verticalização deixou de ser tratada como um instrumento urbanístico para se tornar quase um insulto moral. No entanto, quando observamos cidades densas e bem-sucedidas, percebemos que o problema raramente está na altura dos edifícios, mas na forma como a cidade organiza sua densidade.

Verticalização não é um número

Do ponto de vista conceitual, não existe um “número mágico” de pavimentos que defina verticalização. Nenhuma teoria urbana consistente estabelece que um edifício se torna problemático ao ultrapassar determinado gabarito. Verticalização não é altura absoluta — é um processo relacional.

Um edifício de seis pavimentos pode representar uma ruptura radical em um bairro de casas térreas, enquanto uma torre de vinte pavimentos pode ser apenas continuidade em uma área já consolidada. Verticalização só existe em relação ao entorno. Fora disso, o debate perde sentido.

Em termos rigorosos, verticalizar significa transferir parte da densidade urbana do plano horizontal para o eixo vertical, redistribuindo área construída e população sem necessariamente aumentar a ocupação do solo. Altura é apenas uma variável entre muitas outras.

Densidade, adensamento e confusões recorrentes

Outro equívoco comum é confundir verticalização com adensamento. Adensar significa concentrar pessoas, atividades e usos em determinado território. Verticalizar é apenas uma das formas possíveis de fazer isso.

É perfeitamente possível adensar sem verticalizar — como ocorre em áreas de ocupação informal, onde o solo é saturado sem recuos, sem espaço público e sem infraestrutura adequada. Da mesma forma, é possível verticalizar sem adensar intensamente, como em torres esparsas de alto padrão.

Demonizar a verticalização não é, portanto, defender baixa densidade. Muitas vezes, é apenas ignorar como a densidade realmente acontece nas cidades brasileiras.

O mito climático: vento e sombra na orla

Em cidades tropicais costeiras, como Salvador, os argumentos contrários à verticalização costumam invocar dois fantasmas recorrentes: a perda da ventilação natural e o sombreamento das praias. Ambos merecem ser tratados com mais rigor técnico.

Na maior parte da Orla Atlântica onde surgem edifícios mais altos, os terrenos estão afastados da linha de areia por cerca de 100 metros ou mais, separados por vias, calçadões e faixas de serviço. Esse dado, frequentemente ignorado no debate público, altera completamente a análise.

A ventilação urbana não depende da altura isolada dos edifícios, mas da porosidade do tecido urbano, do espaçamento entre volumes, da orientação das fachadas e da continuidade dos corredores de vento. Em muitos casos, edifícios mais altos e bem espaçados ventilam melhor do que massas contínuas de construções baixas e coladas umas às outras.

Quanto ao sombreamento, em latitude tropical como a de Salvador, não existe sombra permanente sobre a praia causada por edifícios afastados da linha d’água. As sombras são pontuais, móveis e restritas a determinados horários do dia — e, em muitos casos, aumentam o conforto térmico em ambientes de calor intenso.

Altura não é inimiga da escala humana

Um dos argumentos mais recorrentes contra a verticalização apela à chamada “escala humana”. No entanto, escala humana não se mede em pavimentos, mas na qualidade da experiência ao nível da rua.

O que torna um ambiente urbano hostil não é a altura do edifício, mas térreos fechados, ausência de usos mistos, descontinuidade do espaço público e ruptura com o tecido urbano. Um edifício alto pode ser profundamente urbano — ou completamente antiurbano. A diferença está no desenho, não na altura.

O que realmente está em jogo

Quando os argumentos técnicos sobre vento, sombra e densidade se mostram frágeis, o que resta muitas vezes é um medo simbólico: o receio da mudança da paisagem, da perda de vistas consolidadas ou da transformação social associada à valorização urbana.

Esses são debates legítimos no campo político e cultural. O problema surge quando são apresentados como argumentos técnicos, mascarando conflitos de valor como se fossem questões climáticas ou urbanísticas.

Conclusão

Verticalização não é um fim em si mesma, nem uma ameaça automática à cidade. É um instrumento urbano poderoso, especialmente em contextos de solo escasso, infraestrutura existente e necessidade de reduzir deslocamentos.

Recusá-la de forma apriorística não elimina a densidade — apenas empurra seu crescimento para formas mais precárias, desiguais e ambientalmente custosas.

Talvez o verdadeiro desafio não seja decidir quantos pavimentos um edifício pode ter, mas amadurecer o debate urbano para além do medo. Porque, no fim das contas, cidades não fracassam por crescerem para cima — fracassam por se recusarem a discutir desenho urbano, infraestrutura e convivência de forma honesta.

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