A Baía de Todos os Santos (BTS) sempre foi o coração pulsante de Salvador, mas a natureza desse pulsar mudou radicalmente. Se durante séculos ela foi o motor logístico e a porta de entrada da economia colonial e imperial, hoje vivemos um fenômeno mais sutil e sofisticado: a Baía não foi meramente abandonada pelo progresso; ela foi requalificada pelo regime digital.
Sob a égide da dromocracia (o governo da velocidade) e das mobilidades virtuais, a Baía sofreu uma mudança de estatuto ontológico. Ela deixou de ser uma infraestrutura funcional — o lugar por onde as coisas passam — para se tornar uma paisagem semiótica — o lugar que as pessoas olham.
A Metamorfose do Espelho d'Água
Essa transição marca o nascimento de uma nova forma de consumo urbano em Salvador, onde o valor do espaço é medido mais pela imagem do que pela utilidade. Podemos observar essa mudança através de três eixos fundamentais:
1. A Estetização do Lento
No regime da velocidade absoluta, onde o digital exige respostas instantâneas, a lentidão deixa de ser um “atraso técnico” e passa a ser um “luxo estético”. O tempo longo da Baía, antes um entrave ao progresso industrial, agora é vendido como lifestyle.
Onde antes havia o suor do cais e o ruído das mercadorias, agora busca-se o silêncio seletivo dos rooftops e dos empreendimentos de luxo. A “vista para o mar” é a commodity que compensa a aceleração frenética do cotidiano. Em Salvador, a Baía de Todos os Santos não foi abandonada; ela foi promovida de servidão logística a ativo contemplativo.
2. A Gentrificação do Pôr do Sol
A Baía foi deslocada do campo da necessidade para o campo do sentido. Para a economia contemporânea da cidade, o espelho d’água serve menos para atracar navios e mais para ancorar o valor imobiliário.
O pôr do sol tornou-se um produto de exportação digital: uma imagem a ser capturada, filtrada e compartilhada. É o que o sociólogo John Urry chamava de “mobilidade imaginativa”. A Baía serve como cenário para o capital simbólico de uma elite que já não depende do mar para sua subsistência, mas dele depende para sua distinção social. O porto operava no regime do suor (físico); a paisagem hoje opera no regime do pixel (visual).
3. O Porto como Museografia
Projetos de revitalização em áreas como o Comércio e o Porto de Salvador seguem essa lógica de conversão. O espaço não é devolvido à sua função produtiva original, mas é convertido em palco de lazer, turismo e consumo cultural. A Baía, nesse sentido, torna-se um museu de si mesma, onde a história do trabalho é substituída pela estética do entretenimento.
O Respiro da Cidade Veloz
Portanto, a Baía de Todos os Santos permanece central para Salvador, mas de uma forma invertida. Ela não é mais o motor que impulsiona o movimento físico da capital baiana, mas o respiro contemplativo de uma cidade que se esgota na velocidade.
Ela tornou-se o “espaço-tempo” onde a aceleração faz uma pausa necessária para que a imagem da cidade possa ser vendida. No fim das contas, a Baía é o espelho onde Salvador observa a si mesma enquanto tenta acompanhar o ritmo frenético do mundo globalizado.

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