Pular para o conteúdo principal

A “Housing Theory of Everything”: quando a crise habitacional deixa de ser setorial


O artigo “The Housing Theory of Everything”, escrito por John Myers, Sam Bowman e Ben Southwood e publicado pelo Works in Progress, parte de uma provocação ambiciosa: a ideia de que a crise da habitação não é apenas um problema urbano específico, mas um fenômeno estrutural capaz de explicar uma ampla gama de disfunções econômicas, sociais e ambientais nas sociedades contemporâneas.

A força do texto não está em apresentar uma teoria inédita, mas em articular de forma sistemática evidências dispersas que costumam ser analisadas separadamente: produtividade, desigualdade, mobilidade, natalidade e sustentabilidade; sob um mesmo eixo explicativo: a escassez artificial de moradias nas cidades onde as pessoas efetivamente desejam viver.

Habitação como gargalo sistêmico

O argumento central é direto: em grande parte das cidades ocidentais, sobretudo nas mais produtivas, a oferta de moradias cresce muito abaixo da demanda. Essa discrepância não decorre de limites técnicos ou econômicos, mas principalmente de restrições regulatórias, controles de uso do solo e zoneamentos excessivamente rígidos.

"A habitação deixa de ser apenas um bem de uso e se consolida como ativo financeiro protegido por barreiras institucionais; uma dinâmica que ajuda a explicar o aumento da desigualdade patrimonial nas últimas décadas."

Produtividade, mobilidade e crescimento

Um dos pontos mais convincentes do texto é a relação entre habitação cara e perda de produtividade. Ao impedir que trabalhadores se mudem para centros de alta densidade econômica, a escassez habitacional limita a circulação de talentos, reduz ganhos de aglomeração e freia o crescimento econômico de forma difusa, porém persistente.

Desigualdade e captura de renda urbana

O artigo também dialoga com um diagnóstico já bem documentado: a valorização imobiliária funciona como um mecanismo de transferência regressiva de renda, beneficiando proprietários estabelecidos e penalizando jovens, imigrantes e trabalhadores de renda média.

Demografia, clima e forma urbana

O texto avança ainda sobre temas menos óbvios, como a queda das taxas de natalidade e os impactos ambientais do espraiamento urbano. Ao empurrar moradores para áreas periféricas, a escassez contribui para padrões dependentes do automóvel, com maior consumo energético e emissões.

Méritos e limites

Como toda tese abrangente, a “Housing Theory of Everything” corre o risco da hiperexplicação. Nem todos os problemas sociais derivam da habitação, mas seu valor está em recolocá-la no centro do debate como infraestrutura econômica fundamental.

Uma provocação necessária

Para contextos como o brasileiro, onde o debate habitacional oscila entre a informalidade e a produção estatal periférica, essa leitura sugere que enfrentar a crise urbana exige menos retórica e mais atenção às regras invisíveis que regulam a cidade. 

Comentários